1/4 de século, crises e poemas

Leia ao som de Você Não Presta – Mallu Magalhães 

1/4 de século, ou 25 anos – caso você prefira ou seja de humanas como eu. Segundo meu RG essa é a idade que completo hoje,  e pela primeira vez eu me importei com o que aquele pedacinho de papel metido-a-sabe-tudo disse sobre mim. Pela primeira vez não pensei só no lado divertido de fazer aniversário. Pela primeira vez eu realmente me preocupei em estar aqui e em como eu quero estar. Como eu vim parar no meio desse caos? Pareci que voltei a ser criança e me perdi da minha mãe no hipermercado.
Não, pera. Eu não sou uma inconsequente, vulgo v1d4 L0k4 que achava que a vida pudesse durar pra sempre, sabe? Longe disso. Mas acordar hoje, no que poderia ser uma manhã comum de domingo, e me dar conta que tenho 25 anos nas costas, foi o meu insight, entende? Aquele clique, aquela sensação de que se não for agora, pode não ser mais. A idade chegou e pesou mais que carregar as compras do mercado em todo quarteirão (sim, eu amo essas analogias bobas sobre quase tudo). Logo eu, super desastrada, demorei a cair na real.  Falando em cair, se você caiu aqui de paraquedas, relaxa. Ao que tudo indica eu tô meio perdida também, mas fica. Vai ter café – isso eu garanto que sei fazer. Quem sabe até um pedaço de bolo de aniversário de padaria.
 Alguém já me disse que as auto afirmações costumam ser bem perigosas. Eu concordo, mas ainda assim decidi me arriscar a escrever esse texto sobre mim. Escrevo tanto sobre os outros, sobre janelas, ônibus, pássaros, sobre qualquer coisa que existe ou que precisa ser inventada. Escrevo poesias de amores maduros que ainda não nasceram. Escrevo metáforas sobre fins e contos sobre recomeços. Então por qual motivo eu nunca escrevi nada diretamente pra mim? Sobre quem realmente sou? Afinal, escrever é o que mais faço desde que aprendi a juntar as primeiras sílabas. 
É óbvio que tem um pouco de mim em todas personagens que desenho em palavras. Tem meu coração nas Camilas, Carolinas, Letícias, Eduardas. Me projeto nos sonhos, nos cabelos, nos medos de cada uma. Me inspiro nas pessoas que conheci pelo caminho, e nas que queria conhecer. Eu sinto tudo que escrevo respirar, caso contrário, as palavras não saem da minha gaveta, não fazem sentido pra mim. Eu escrevo pra tocar alguém de alguma forma, e pra isso tenho que ser tocada primeiro. Mas o que será que eu escreveria de mim para mim?
Provavelmente começaria pelos pontos negativos. Tenho essa mania de olhar pros meus defeitos primeiro, antes de ressaltar as qualidades. Uma autocrítica que beira o complexo. Mas essas minhas instabilidades quando o assunto é autoestima, ouso dizer que foi o que mais me fez amadurecer, me fez pensar sobre a vida de dentro pra fora. Eu aprendi, depois de muitas crises de choro sozinha dentro do banheiro, que preciso ser mais gentil com as minhas fraquezas. Aprendi a pegar leve comigo, a respirar fundo, e conclui que ninguém poderia me ofender a partir do momento que eu entendesse que ser como sou não é uma ofensa pra mim mesma. Daí fui separando o que eu precisava mudar pro meu bem, e o que eu só achava que tinha que mudar porque alguém me disse. Até hoje busco esse equilíbrio. Aliás, viver é praticar slackline  na linha tênue das coisas.
Quando criança, eu imaginava que com 25 anos, eu já teria publicado uns cinco livros, viajado por vários países e assistido ao vivo minha banda preferida. Bem, esses ainda são itens que não risquei da minha listinha. Espero que a minha versão menina não tenha se decepcionado. Espero que ela entenda que eu nunca aprendi a andar de bicicleta e a fazer bola de chiclete. Espero que ela releve que eu morro de medo de avião e que ainda não tenho o emprego dos sonhos. Espero que ela não ligue tanto quando souber que paguei a academia e não fui – diversas vezes. Ou que estudei demais praquela prova de concurso, mas tive crise de ansiedade e não consegui sequer assinar o nome. Espero.
Taí algo que eu tenho: esperança. Aquele tal sentimento verdinho, bonito, que dizem que nunca morre. Em mim ele continua de fato vivo. E o que me faz viva é justamente essa mania de acreditar. Talvez eu acredite mais nos outros do que em mim.Talvez eu ainda acredite em finais felizes. Talvez eu viva de prosa e poesia. Talvez eu viva de talvez. E quantas certezas que a gente tinha certeza viraram incertezas? 
Só sei que me vejo mulher em cada ano que envelheço, me orgulho de cada traço que muda com o tempo. Não temo o esbranquiçado dos cabelos. Temo que a vida passe sem que eu consiga dizer ao mundo o motivo deu ter vindo. A vida é um sopro, e eu sou uma tempestade de vento.

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