Ampulheta, dente-de-leão e outras histórias sobre o futuro

Eu não sei o que vai acontecer amanhã. Aliás, o amanhã é um prazo muito longo. Eu não sei o que vai acontecer no próximo minuto. Não sei nem o desfecho desse texto, não sei se durante o desenvolvimento dele eu vou me distrair com o barulho do avião ou do carro da pamonha que passa sempre no mesmo horário.

Não sei se vou parar e olhar alguma notificação no celular ou se vou me lembrar do nada de uma citação interessante que cairia bem aqui. Talvez o canto dos passarinhos que visitam a horta da minha avó me distraiam também, ou o despertador me lembrando de tomar o remédio. Eu sou distraída, e aparentemente o futuro também é.

Eu aprendi algumas coisas sobre o futuro, e uma delas é que ele chega rápido demais. Se pararmos pra pensar o dia de amanhã nem existe, a gente que é forçado a acreditar nele como uma espécie de otimismo. Ou às vezes o amanhã é tão utópico que podemos chamar de ilusão também. “Isso vai passar. Amanhã é outro dia”/”Nada como um dia após o outro”…

E não que eu discorde completamente desses ditos populares, faz bem a gente manter a esperança viva de alguma forma (e eles já me ajudaram em determinados momentos da vida). Eu gostaria de poder prever algumas coisas ao menos, mas isso seria como prender o acaso em uma gaiola. E a maior beleza do acaso talvez seja a  liberdade de surpreender até os mais incrédulos.

“Como esse ano passou rápido”. Eu escuto sempre os mesmos murmurinhos (alguém ainda usa essa expressão?) todo santo ano. E realmente, parece que foi ontem que eu estava vestida de branco, esperando a inauguração de mais um calendário. Hoje aprendi a não reclamar mais que o tempo voou, aprendi que não é culpa dele. Aliás, tempo esse que nós estimulamos, e agora nos sentimos refém. Então, na verdade, só somos reféns de nós mesmos e daquilo que criamos e não podemos controlar.

Nós podemos decidir como vamos enxergar o futuro, se é como uma ampulheta ou como um dentede-leão. A ampulheta, é a nossa invenção, nossa tentativa de controlar o que está por vir, a nossa pressa, a nossa mania incansável de medir o tempo. O dente-de-leão é a natureza, é o presente do acaso e do divino, é a leveza do vento de nos levar à rumos inimagináveis que fogem totalmente do nosso controle.

Se eu pudesse deixar um recado para o meu “eu do futuro” seria apenas esse: observe mais aquilo que não pode ser medido, nem modificado. Entenda sua pequenez diante do mundo e deixe que isso te engrandeça. Viva um dia de cada vez, porque é assim que eles foram feitos para serem vividos. Se preocupe menos com o amanhã e então, não existirá mais essa pressão de fim de ano e muito menos essa cobrança interna por mudanças. Tudo isso porque cada dia será uma virada, um recomeço… Cada dia será o que deve ser: um dia.

 

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