Café morno e clichês de um pseudo amor

Que tal ler esse texto ao som de Meu erro na versão do Chimarruts?
Você me ofereceu um café morno às 17h daquele dia meio cinza de agosto. Esse gesto foi, sem dúvidas, o primeiro de uma sucessão de erros. A contradição já começa daí, né? Se foram tantos erros, nem poderia ser denominado com um aumentativo de “sucesso”. A verdade é que a gente fracassou nessa história de construir uma relação saudável e bonita pra chamar de amor, pra chamar de nossa. Eu também errei feio e não me abstenho disso, não te culpo apenas. Foi como naquele refrão: “O meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria”, sabe? Pois é, mas ao que tudo indica, não bastou. 

Nota mental: nunca deve bastar. 
Eu deveria ter desconfiado desde aquele exato momento que você não estava muito disposto a me oferecer o que tinha de melhor.  Mas eu engoli o café goela abaixo e ainda retribui com um sorriso. Por sorte, naquele mesmo instante que o café com gosto de anteontem deslizava na minha garganta, você elogiou meus olhos. Disse que eu tinha um par de olhos de jabuticaba capaz de hipnotizar. Foi um elogio um tanto clichê, mas me fez sorrir e te fez me elogiar de novo. Dessa vez você disse que meu sorriso era incrível e que eu deveria viver sorrindo pros quatros cantos do mundo. Você prometeu fazer de tudo pra causar um sorriso largo no meu rosto, prometeu mover montanhas pra me fazer feliz, mas não foi capaz nem de fazer um café fresco. 
Eu acreditei. Junto com o café frio engoli também suas desculpas esfarrapadas, suas piadas machistas, suas críticas maldosas disfarçadas de elogios. Você era bom nisso de me fazer sentir maravilhosa, me inflar como um balão e depois pegar teu alfinete e estourar minha autoestima. Ploft! Você achava meu corpo lindo, mas eu não devia expor porque não pegava bem. Você adorava minha boca, mas era melhor não passar batom pra você poder me beijar quando bem entendesse. Vermelho então? Nem pensar. Mas os olhos eu podia maquiar, aliás, devia. Só assim eu conseguiria disfarçar o quanto eles andavam tristes e cabisbaixos ultimamente.
Não foi fácil dizer adeus, por mais masoquista que isso pareça. Mas hoje eu consigo respirar aliviada e agradecer sua partida brusca do meu coração. Hoje eu tomo meu café fresco (e bem quente!) sozinha e a qualquer hora do dia. Reaprendi a sorrir só quando realmente tivesse vontade e não pra fingir que concordo com alguma piada sem graça sua que sempre diminuía alguém. E adivinha? Hoje sorrio muito mais que antes!  Hoje não preciso estar com os olhos impecavelmente maquiados para ir na padaria logo cedo (e esconder o quanto tinha chorado na noite anterior). Troquei o salto alto pelas pantufas que você achava ridiculamente infantis. Tinha esquecido o quanto elas são confortáveis. Até meus pés agradecem pelos seus terem ido pra outro rumo. Ah, os meus ursinhos de pelúcia de estimação também voltaram pra cama e pra estante de onde não deveriam ter saído.
Hoje eu vejo claramente que o que vivemos ali, não era e nunca foi amor. Eu quis tanto acreditar que tinha chegado a minha vez de ser feliz com alguém, e esqueci o tamanho da minha capacidade de me fazer feliz por conta própria. Deixo claro que eu quero sim me apaixonar, não deixei de acreditar na felicidade a dois. Só voltei um pouco no tempo, nas primeiras aulas de matemática da tia Jane, e lembrei que 1 + 1 foi feito pra somar. Eu quero me relacionar de novo, mas com alguém que agrega. Com alguém que esteja disposto tanto quanto eu. Estou disposta até a dividir meu café forte e quentinho como o amor deve ser. Tem algo mais precioso que isso? 

Crédito da foto: Gabriel Saldanha

 

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