A gente se perdeu. Ela tentou me explicar, mas eu não entendi. Seu jeito era difícil demais, parecia um daqueles cubos mágicos. Você tenta várias vezes, mas é quase impossível de encaixar tudo da forma certa.
O ascendente dela é em gêmeos, ela me disse. Eu nunca soube o que isso significava, nunca dei bola. Fui entender agora, enquanto tento entender o fim de tudo, descobri algumas coisas. 
Ela não curte caras grudentos, poemas românticos ou situações rotineiras. Ela não vai se impressionar por qualquer buquê de rosas ou caixas de chocolate. Pra ela, o mais importante tá na inteligência, na conversa e na autenticidade. Ela vai ligar pras suas opiniões e contestar tudo aquilo que há de errado. É aprender ou cair fora. 
Ela é de Mercúrio, o planeta da comunicação. Por isso, podem se passar horas, horas e mais horas, ela vai continuar falando e falando, até que o assunto acabe. E você nem vai sentir raiva, o som da voz dela é melhor que qualquer música do Chico Buarque. Gosta de pesquisar, de ler, de estudar e de absorver a maior variedade de assuntos novos, e, pode ter certeza, vai querer te ensinar tudo isso. Das coisas mais banais às coisas mais importantes do mundo. Vai querer te levar pra viajar, em todos os sentidos. Primeiro pra Índia, depois pra vida dela. 
Você vai, às vezes, se sentir de lado, isolado e desnecessário, mas não liga não. Ela é assim mesmo, não precisa de ninguém. É livre. Não tente entender, nem ela se entende. Deve ser coisa dos astros. 
Você não é o centro do mundo dela. E nem tente ser. Se contente com o pouco que ela te dá ou é melhor ir embora, como eu fiz. E me arrependo. Ela vai esquecer de você pra depois se lembrar. E esquecer de novo. E lembrar de novo. É um ciclo de indecisão que movimenta a vida de qualquer um. Ela é intensa, nunca para. 
Pra ela, sentir demais nunca é demais. É o suficiente. O suficiente para ser feliz demais, triste demais, para viver demais. Porque intensidade é o que move a vida dela. E, pra falar a verdade, o menos nunca foi mais. Ela sempre me diz: Sentimento é pra sentir, se fosse pra enfeitar o nome era outro. 
Sinto falta dela, sabe? Daquela loucura toda, daquela movimentação cotidiana. Da raiva que aparecia nos olhos azuis dela, sempre que eu perguntava “onde você quer comer?”. Ela nunca sabia responder. 

Tô aqui esperando. Vai que um dia ela me escolhe de novo, numa dessas indecisões dela.
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