– Você não sabe quem eu vi na rua hoje…

– Quem?

– Ela.

– Sério, cara? E como foi vê-la depois de tanto tempo? Espera… Tem quanto tempo mesmo que vocês não se viam?

– Ah, cara, deve ter quase quatro meses e ela continua magnífica.

– Onde você estava?

– Lembra daquela cafeteria que eu a conheci e íamos quase todo sábado? Ela estava sentada lá, na nossa mesa.

– Achei que depois daquela discussão vocês não se veriam nunca mais. Ou pelo menos evitariam certos lugares onde há grandes chances de se encontrarem, né?

– Sabe quando você acorda no automático? Então, eu simplesmente levantei e fui até lá. Por mais que já tenha algum tempo, acho que meu cérebro ainda não entendeu que se ele não quer sofrer, lá não é um bom lugar para continuar frequentando. Ou ele sabia que ela estaria lá e que eu precisava vê-la pela última vez.

– E por que você não caiu fora?

– Não dava. Pedi um expresso com um pão na chapa e quando olhei para o lado, lá estava ela. Ainda não perdeu a mania de pedir um café pra viagem e sentar para tomar. Nunca entendi direito qual o sentido disso, mas ela gostava de ficar segurando aquele copo com a logo da cafeteria e pelo visto ainda espera seu café esfriar para tomar.

– Por que não pediu para viagem depois de tê-la visto?

– Não dava, cara. Eu não tinha forças suficientes para tirar os olhos dela. Peguei meu café e fui sentar no balcão, onde podia vê-la sem que me visse. Não queria que percebesse que eu ainda sinto falta.

– Eu sei que você queria que ela te visse e fosse até você.

– Mas ela viu. E foi.

– E você?

– As minhas pernas bambearam e achei que tinha perdido toda força muscular. Ela levantou para ir ao banheiro. Cara, eu esqueci que ela sempre vai ao banheiro antes de ir embora. Tem essa mania de lavar as mãos, sabe?

– E depois?

– Deu de cara comigo quando saiu do banheiro e abriu aquele sorriso que eu tanto amo. Naquele momento foi como se nunca tivéssemos nos separados. Ela veio até mim de cabeça baixa, tímida enquanto suas bochechas coravam. Seus olhos tinham um brilho diferente, pareciam mais felizes e por um momento achei que tinha esquecido o som da sua voz. Parou na minha frente e acho que pensou se devia me abraçar ou manter distância. Pena que escolheu ficar bem onde estava, mas ainda assim eu conseguia sentir seu cheiro. Ah, aquele cheiro é indiscutível. Reconheceria há milhas de distância.

– Cara, você ainda é louco por ela.

– Sou. Maluco por aquela mulher, mas eu sei que a perdi. Perdi feio. Pisei na bola e a fiz chorar. Hoje me arrependo demais, mas não há nada que eu possa fazer. Ela não quer e não está errada. Desperdicei todas as chances que ela distribuía de graça pra mim, só que uma hora acaba, né? Ela percebeu que eu era perca de tempo, enquanto eu notei que ela é tudo que eu queria e esqueci que tinha.

– E como ela está? Lembro que sempre foi muito ansiosa e preocupada com tudo, né?

– Além de mais encantadora do que antes? (…) Ela conseguiu o emprego que queria em São Paulo, estava só de passagem na casa da mãe para pegar algumas coisas que ficaram. Estava muito feliz, mais leve, tranquila e pude sentir sua paz de espírito. Perdeu aquelas rugas na testa de preocupação, afinal não tem mais quem te tira o sono. Te contei que ela não estava sozinha? Pois é, ela nunca foi de ficar sozinha, ela esquece que se basta e que não precisa de ninguém, mas acho que no fundo, bem no fundo ela sabe disso. Ela é que sabe de si.

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