Leia esta crônica enquanto escuta Stay Alive, de José González.

Na mesa de um café, cada uma com seu smartphone em mãos. Mal olhavam para si, muito menos pro cappuccino que estavam tomando. Enquanto meu celular carregava no balcão, eu aguardava o meu pedido me distraindo com as freguesas ao lado.

Enfim surgiu um assunto, uma mostra à outra a tela do celular:

– Olha o feed dessa menina, tão lindo e organizado. Comidas, roupas, viagens… tudo na mesma paleta de cores.

– Uau! E esses dentes brancos? Queria pra mim! Essa pele também.

Continuavam a conversa sobre outros perfis, outras pessoas, mas todos com uma característica em comum: a vida perfeita que levavam.

Percebi que havia um anseio entre as duas amigas em ter aquilo, e um esforço em se assemelhar aos exemplos. Ao editar uma foto da mesa arrumada e do café bonitinho, uma delas nem percebeu que tinha acabado de cair uma mosca ali dentro.

Veio o garçom em minha direção:

– Aqui está o seu café e sua torta red velvet, moça.

– Obrigada!

-Ah, aquele celular que está no balcão é seu?

-Sim. Já carregou?

-Vou trazê-lo pra você!

Senti um alívio enorme ao ter de volta o meu aparelho. Não aguentava mais ficar sem ele, nem as horas eu sabia. Tenho um relógio mas serve só para enfeite, pois comprei em um site da China e ele veio sem bateria. Mas não me importo com isso, é uma réplica de um acessório caríssimo que uma blogueira que eu sigo usa.

Segui tomando meu café. Não costumava frequentar esse bar, só fui porque vi que eles fazem essa torta da moda.

De repente, o assunto daquelas duas me chamou atenção. Depois de ter admirado e exaltado a vida de pessoas (des) conhecidas da internet, uma delas começou a desabafar.

– Essa gente com a vida tão perfeita e maravilhosa… Queria ser assim: feliz o tempo todo, sem problemas familiares, sem desilusões amorosas, com um trabalho perfeito, uma rotina perfeita. Meu sonho ter a auto estima de fulana. Olha pra ciclano, consegue ter um corpo maravilhoso, não foge nunca da dieta! E eu, coitada de mim, vivo uma vida de recaídas e tristezas. Parece que estou sozinha nesse mundo da infelicidade, e todos ao meu redor vivendo suas vidas alegres e perfeitas.

Fiquei curiosa pra saber quem era a moça, então, ouvi a outra a chamar pelo nome e procurei por ela em uma rede social. Percebi pela última foto que havia postado, com a localização do café, que eu tinha encontrado a coitada da menina triste. Se dependesse somente das selfies, nunca teria certeza de que era a mesma pessoa. Tinha muita diferença entre uma e outra, fisicamente e emocionalmente.

No feed eu via uma moça linda, com uma pele de seda, o sorriso branco como os de comerciais, cabelo penteado e sedoso, looks maravilhosos e de causar inveja. Muitos posts motivacionais, frases positivas, “exercer a gratidão”. Aparentava ser uma pessoa feliz que levava a vida perfeita: uma idealização.

Pessoalmente a pele era de uma adolescente normal, um pouco de acne e olheiras, porém bonita. Os dentes não eram tão brancos, mas podia ver que eram bem cuidados e saudáveis. Seu cabelo estava preso num coque, desses que a gente faz quando está calor, nada arrumado. As vestimentas pareciam muito confortáveis, legal para usar em um sábado à tarde junto com um chinelo de dedo. E sim, ela tinha seus problemas, percebia-se que ali na mesa seu semblante não estava feliz como parecia estar na última selfie que havia postado. Ali estava a realidade.

Comecei a pensar se aqueles ícones da internet que levam uma vida (im)perfeita também se queixam com seus problemas ao ver, pelas redes sociais, a vida de outras personagens. E é claro que sim, ninguém está sozinho nessa. É óbvio que não existe nada tão mágico e sem defeitos. E a vida real, sendo algo tão complexo, não seria diferente. Eu já havia escutado de uma amiga minha que ninguém chora online, mas naquela situação que eu fui entender de verdade, as redes sociais não representam a vida real. Ninguém expressa suas dores na timeline. Ninguém posta suas cicatrizes, nem dão likes em problemas. No feed a vida rola muito mais fácil e mais bonita do que realmente é.

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