Era março quando tivemos nossa primeira briga. Bernardo me olhou com aqueles olhos de sinceridade e disse: – Acabou. Ele estava desistindo da gente na nossa primeira briga. Pra você ter noção, brigamos pra ver quem lavaria a louça e na loucura dessas discussões bobas ele me disse que não suportava a ideia de encostar em restos de comida, e como eu não havia dito uma palavra, ele acabou com tudo. Foi por causa do Bê que inventei uma alergia a detergente pra não lavar louça. Quero dizer até que conheci o André.

O André adorava ficar em casa. Sabe esses programinhas de casal? Ah, isso eu tinha de sobra com o André, se fosse contar como trabalho remunerado, diria que o André eu fazíamos horas extras em casa. Era filme o final de semana todinho, brigadeiro de panela e usávamos mais o app do Ifood do que o fogão do apartamento. Mas pelo menos a gente lavava a louça juntos. Não sei como a nossa história acabou, de uma pra outra a gente foi dormindo no meio do filme e quando o outro se dava conta, a única companhia que restava era a moldura fria do corpo tatuada no lençol. Jurei que nunca mais assistiria filmes do Woody Allen. Até que conheci o Fernando, uma versão do Woody Allen de quase dois metros de altura e toda a cultura geek que você pode encontrar em alguém.

O Fernando era o meu autorretrato. Sabe nas aulas de artes quando tínhamos que nos desenhar? Então, o Fê era igualzinho a mim, a fuça um do outro, sabe? Nós éramos aquele casal de série, que deixaria Lily e Marshall no chinelo, não haveria Ross e Rachel pra contar história. Nós éramos o casal perfeito. Mas ai, um dia sem querer, me vi comparando o Fernando com os meus antigos relacionamentos. No meio da conversa balbuciei “pelo menos você não dorme nos filmes que nem o André”. Já viu no que deu? Fui de Ted/Ross à Barney em questão de milésimos. Mais um pra listinha. Game Over.

O Ricardo colocou ponto final no nosso conto de fadas, por que eu não acreditava em – olha só – FADAS! Ele me deu uma aula de fadanologia* e terminou, enquanto eu juntava todo o pó de pirimpimpim.

O Rafael, mesmo terminando, foi de longe o relacionamento mais sincero que tive. Lavamos louça, dormimos no cinema, fizemos brigadeiro, olhamos as estrelas juntos. Recitamos poemas de amor e fizemos muito amor. Nós nos amávamos todos os dias. Todos os dias uma nova jura de gostar um do outro. Todo dia um restaurante novo descoberto no Ifood. Todos os finais de semana três ônibus até chegarmos na casa do outro. Mas com o tempo, nosso relacionamento desgastou. O medo de me entregar totalmente me fez perder as estribeiras e colocar um ponto final naquilo que poderia ter sido apenas uma vírgula. Quando terminei com o Rafa, ele me olhou nos olhos e disse “tua vida é toda incerta porque você não sabe filtrar as coisas, recicle apenas o que é bom. Jogue fora o filtro usado.” Cheguei em casa e ao preparar o café, entendi o que o Rafa queria me dizer.

Na primeira jorrada quente todo o pozinho de café se dissolve e prende no papel. A água transparente vai ficando marrom e com um cheiro tão harmonioso que você não sabe se toma o café ou se namora com ele. Assim como o primeiro amor. Mesmo que ele transborde na borda, tudo o que a gente quer é que a harmonia dos dois seres se complete, não é?

Na segunda, terceira ou quarta vez que passei o café, notei que o cheiro harmonioso estava acabando, aquela água que escorria rapidamente começou a ir devagar, devagar, devagar e de uma hora para outra, começou a pingar. O pó de café ficou pesado demais. Entupiu a única saída de agua pelo filtro. Isso acontece quando nos relacionamos com pessoas que divergem das nossas ideias e princípios, como um outro namorado meu, que me intoxicou demais pra querer ser personagem desse texto.

Tentei, sem sucesso, lavar o filtro e tentar reciclá-lo. Porém, assim que o papel secou, notei que manchas escuras colorem o papel branco. Manchas de café, mas que poderiam ser manchas de um passado que deve ser esquecido.

Filtros de café só devem ser usados uma vez. Assim como cada história que não deu certo deve ser vivida uma única vez. Recicle o filtro quando as lembranças forem boas, aos demais, jogue fora. Café bom é aquele que passamos em filtro novo, sem nenhuma sombra ou mancha do que já foi passado.

 

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