Oi meu amor, se você está lendo isso é porque você achou a carta dentro do meu casaco favorito. Acho que morri, não foi? O remédio não fez mais efeito? Queria saber se morri admirando o teu sorriso, você sorriu pra mim? Meio mórbido começar a carta assim, desculpa. Tô parecendo aquele personagem de P.S eu te amo, esse mesmo, o personagem do filme que você odiava. Afinal, quem em sã consciência morre e deixa uma carta pro amor que sofre a morte do outro?

Eu sabia que ligar não ajudaria, então resolvi te escrever. Logo estou indo pra minha quarta internação, quarta. As três que passaram, tiveram volta. Eu voltei pra você e pros nossos filhos, mas eu sei meu amor, que essa será a última. Você não precisará mais subir as escadas enquanto me carrega nos braços. Você não verá mais minha cara de dor e eu não verei você fingir felicidade enquanto chora pelos cantos.

Esses últimos anos foram doidos e doídos. Pra nós dois. Mas não quero falar de dor, mesmo sabendo que em uma rima tosca ela se encaixa com amor. Quero falar então, sobre doar-se e como num gesto lindo, ela vira amar. Eu te vi doar-se todos esses longos anos. Desde nosso primeiro encontro você sempre doou mais a mim do que a ti mesmo, e sem quer parecer egoísta, foi o que me fez apaixonar por você. Essa ânsia tua de querer doar o tempo todo juntamente com a minha, doariam histórias aos nossos filhos.

Se você olhar a sua frente, verá um tanto de fotos espalhadas pela mesinha do escritório. Bem ao fundo dessa mesa, tem nossa primeira foto, o registro do nosso primeiro encontro. Fotografia tirada logo após você derramar metade do café na sua blusa branca e eu, não podendo segurar a gargalhada no meio daquele café lotado. Dá pra ouvir minha gargalhada só em olhar essa foto, não dá?

Todos esses anos eu olhei essa foto, que mesmo com o passar do tempo, mesmo ficando úmida e amarelada nas pontinhas, nunca deixou de ser a nossa melhor foto. Você com seu olhar inocente e eu, rindo que nem idiota. E eu fui idiota, amor. Uma porção de vezes. Você lembra aquela que vez que te deixei sozinho no estacionamento do shopping, só porque havia esquecido o ticket de saída em alguma mesa da área de alimentação? Ou quando eu arrumei suas coisas e joguei porta afora, pedindo pra tu ir morar com tua mãe, que não dava mais e que eu poderia cuidar de mim e do Carlinhos sozinha?

Naquela noite eu percebi que não conseguiria dormir um dia sem você. Não conseguiria dormir sem o som da sua respiração pesada, sem seus pés gelados esbarrando nos meus, numa tentativa de fazer-te se esquentar em mim. Você me esquentou um trilhão de vezes nesses quase quarenta anos de casados. Teu amor me esquentou todos esses anos, e se hoje tenho forças pra te escrever é porque esse amor teu, depositado todinho em mim, me deu forças pra pegar a caneta e te escrever.

Espero que não sofra, meu amor. Espero que entenda que partir foi melhor do que toda a dor que senti e que, provavelmente, sentiria com o passar dos meses. É, eu sei que vai ser difícil, sei que vai. Mas promete tentar? Pelos nossos filhos, pelos nossos netinhos que devem estar te cercando de abraços e claro, pelos nossos bisnetos que logo estarão correndo pela casa. Não chore meu amor, dói em mim também. Não te ver bravo com um sorriso gigante no rosto é o que mais me fará falta e nem preciso dizer o quanto teu ombro amigo me acalmava em dias corriqueiros.

Não siga fielmente as coisas que te farão lembrar-se de mim. Viva, meu amor. Sorria pra vida como eu sorria pra ti, abrace a vida como nossos braços se enlaçavam em um só e ame. Apenas ame. Me ame ou ame outro alguém que, assim como eu, será merecedora de coração que não lhe cabe no peito. Pois foi isso que fiz todos esses anos: te amei, amei de novo e se pudesse, amaria novamente. Não cansei de te amar um minuto sequer, nem quando falava que jogaria tuas roupas janela abaixo.

Fui feliz com você querido, e é isso que quero que saibas. Você me fez a mulher mais feliz do mundo, e este coração, até o último minuto bateu só por você. Sempre por você.

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