O elástico do lençol não cobre totalmente a cama, eu definitivamente me mexo demais. O meu corpo acompanha o movimento. Qualquer movimento que exista na madrugada. Por vezes silenciosa, mas muitas vezes ensurdecedora. Tenho dois cobertores mas insisto em me cobrir de pensamentos. É quase como se o frio fosse meu colega de quarto e me descobrisse minuto a minuto, na cidade que dorme cedo.

Embaixo dos travesseiros está meu livro favorito mas é impossível ler no escuro. Ele fica aonde está e eu me lembro de como é ler você. Me vem a cabeça nossos passos, devagar, que não cobravam por tempo nenhum. Iam trocando lugares, pé a pé, no píer que cobre a beirada do mar. Eu olhava pro seu rosto e sorria com o canto da boca, meu desejo era te ver sem questionar. Fazia isso sempre que podia. Eu queria ver a cidade com teus olhos só pra saber como é sentir na tua pele. Numa dessas noites quietas, me peguei pensando, que essa é uma das formas mais intensas de amar.

Me concentro e consigo ver nitidamente teus pés em todos os lugares que a gente visitou. Gravei também teu rosto, fragmentos da tua risada e o modo como abaixava o olhar quando me via chegar. O jeito como tocava em tudo. Desde os utensílios de cozinha até o entrelace fácil da tua mão na minha. Como adormecia nesses mesmos lençóis que deito hoje e como olhava pro horizonte desconfiada, feito felino que tem medo de mar.

Antes de dormir eu vi luzes cobrirem o céu. Parecia uma reprise daquela noite, quando fechei meus olhos e fiz alguns pedidos as estrelas industriais. Me questionava como poderia alguém, estar ali e não querer estar em nenhum outro lugar. E se era pra ser assim, que todas as páginas dessa história, tivessem o peso exato pra gente poder virar.

Porque eu sou apaixonada por esse movimento. De pegar um folha na ponta, acariciar sua linha vertical e subir até sua outra esquina, virando devagar pra outro dia. Eu me sinto assim quando durmo. Como se alguém estivesse lendo o que escrevi. Deve ser por isso que o lençol nunca fica no lugar e os travesseiros acordam no outro lado da cama. É a cena perfeita pra um recomeço. Basta esticar o tecido novamente, alinhar as almas e espreguiçar. Vai ver, o ensinamento é esse. Não dá pra ler no escuro, porque a noite é feita pra sonhar.

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