Leia o texto ouvindo Let Her Go - Passenger

Oi, querido.

Já é quase manhã e te escrevo com dor e prazer no meu coração. É seu aniversário. O décimo terceiro desde que você foi embora. É uma data que me dói, porque não posso sentir seu cheiro, te dar um abraço, olhar nos seus olhos… Seus olhos profundos e serenos que eu tanto amo… Nem a morte foi capaz de tirar esses olhos de mim. Mas esta também é uma data que enche meu coração de ternura. É o dia em que o mundo ganhou a melhor pessoa que eu já conheci, a pessoa que eu mais amei, que eu mais quis, que eu mais admirei em toda a minha vida. A pessoa que me salvou de mim mesma e, como se não bastasse, que ainda me deu a maior dádiva que eu poderia pedir. A pessoa que me deu e que foi toda a minha família.

Agora há pouco, nossa afilhada veio conversar comigo. Aquela doce menininha agora já é moça, estuda direito e quer ser escritora. Como eu queria ser, lembra? No meio de tanta conversa, ela me perguntou sobre você. Ah! Que dor eu senti! Não hoje, por favor, não! Hoje meu coração dói. Mas eu não pude deixar de esboçar um sorriso… Meu coração se encheu de boas memórias quando o seu rosto me veio à mente.

Então eu contei a ela sobre nós, sobre como nós nos conhecemos e sobre como nós vivemos a história de amor mais linda e verdadeira que o mundo já viu. Uma história cheia de cumplicidade, respeito, força e, é claro, amor. Eu sei, você é discreto, não gosta que eu conte essas coisas. Mas me entenda: passava de uma da manhã e havia muitos copos de cerveja envolvidos.

Eu contei a ela sobre como nós nos conhecemos naquele clube de futebol de salão, como nos reencontramos naquele carnaval regado a cerveja e cigarros, e até sobre como a sua ex era irmã do meu ex. Nessa parte ela até achou graça. Contei a ela como nós nos apaixonamos tão perdidamente que logo o nosso amor se configurou em uma outra vida. E como nós nos casamos, como fomos morar no nosso cantinho lá na roça, como voltamos para a cidade para tentar uma vida melhor, como superamos todas as dificuldades de uma vida a dois – e depois a quatro. Contei a ela sobre como o amor que eu sentia por você me acalmou a cada discussão, a cada frustração e em cada briga. E como esse mesmo amor impediu que eu perdesse a cabeça naquele que foi o pior dos tempos.

Quando você adoeceu, querido, eu adoeci também. E quando você se foi, parte de mim se foi também. Ninguém sabe o que foi que nós passamos juntos, naqueles longos e dolorosos anos. E não queria que nem mesmo você soubesse como foi que eu sofri, como foi ter que cuidar de você enquanto você se despedia. Ninguém sabe como eu sofri ao te ver definhar, perder os cabelos, perder o ar… Ninguém sabe como foi acordar todas as manhãs com medo de que aquele dia fosse o último. Ninguém sabe o que foi assistir você ir embora, mesmo lutando para ficar.

Você não queria ir, meu amor, eu sei. Você amava a sua vida, por mais simples e difícil que fosse. Você queria lutar, ver suas filhas formadas, casadas, ver suas netinhas que hoje me dão tanta alegria. Mas, me desculpe, a certo ponto, eu já não queria isso para você. Disse algo sobre isso à nossa afilhada, sobre como, naquela noite, eu conversei com você e te disse que já podia ir. Já podia parar de sofrer e ir pro céu, jogar futebol com seu pai e deitar no colo da sua mãe. E tudo o que eu te prometi naquela noite, eu juro, eu cumpri.

Eu cuidei das nossas filhas. Elas são mulheres lindas agora. A mais velha já tem três crianças, três meninas muito especiais, e é muito feliz. Nossa caçula agora já está casada e espero que logo traga mais vidas para essa família. Nosso cantinho, nosso primeiro lar, ainda está lá, do jeitinho que você deixou. Já não posso mais voltar, porque aquele lugar, que um dia foi tão mágico, hoje me parece um pouco assombrado sem você.

E eu… Bom, eu estou bem.

Ninguém mais ocupou seu lugar, senti que não devia. Afinal, eu ainda estou apaixonada por outro. Ocupo meu tempo livre, que agora é muito, com minha coleção de livros, que agora é maior. Vez ou outra invento de pintar ou fazer crochê, mas o meu refúgio mesmo são os livros, porque neles eu saio daqui e viajo para um mundo em que ainda tenho você ao meu lado. Às vezes, no meio de um livro, eu fecho os olhos e consigo sentir sua mão apertando a minha naqueles seus últimos momento de vida, como quem dizia “até mais”. Não um adeus. Não, eu te vejo no paraíso, meu amado, meu marido.

Eu te amo, querido, sempre amei e vou sempre amar. Contar nossa história hoje foi difícil, mas eu precisava fazer isso. Uma história tão bonita, tão honesta e intensa como a nossa não haveria de morrer nas nossas memórias. Contei essa história hoje à nossa afilhada porque quero que ela não deixe jamais de acreditar que, apesar de tudo o que vem com ele, o amor verdadeiro e eterno existe. Foi o amor que nós vivemos e sobre o que, eu tenho quase certeza, ela vai escrever amanhã.

 

Para Míriam e Monteiro, os protagonistas dessa história de amor.

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