Dia desses, enquanto eu estava presa na minha rotina e passava um café bem forte para começar o dia, me peguei pensando em você. Não era saudade, não era falta sua, porque nunca nem foi amor. Amor de verdade, sabe? Era só mais um desses flashes de memória que a gente tem durante o dia e nos pegamos recordando de algo do passado, que só então percebemos o quão antigo é. É como se o cérebro desse uma leve bugada e rebobinasse memórias esquecidas. No momento em que me lembrei de você, eu não senti nada. Nem pena. Não lembrei do seu cheiro, não senti seu gosto nos meus lábios e esqueci o som da sua voz.

Reza a lenda que quando esquecemos o som da voz de alguém que costumava ser melodia para nossos ouvidos, é a hora em que realmente esquecemos desse tal alguém. A lembrança mais forte que bateu no peito naquele momento, foi que eu nunca tomei seu café. Não senti o cheiro do seu café recém passado, não te vi perto do fogão vigiando as primeiras bolhas se formarem na água e certificando que a água não ferveria só para não queimar o pó.

Foi nesse mesmo momento que eu entendi que seu café nunca fez falta ou diferença, nem quando estávamos juntos. Eu nunca precisei do seu café. Nem de você. Não era amor. Nunca foi. Nossa relação não passou de apego.

Talvez você esteja pensando que agora todo esse meu monólogo interno seja uma forma de cuspir no prato que comi um dia, mas não. Você não entende que foi difícil para mim abandonar nosso barco. Eu até tentei usar um tapa olhos e não enxergar os furos na madeira da proa e como nossa tripulação estava abandonada.

Eu precisei pular na água e aprender a nadar sozinha, porque você nunca teve um colete salva-vidas para me salvar. Eu aprendi a me cuidar sozinha. Obrigada por nunca ter feito café para mim. Você nunca foi o cara da minha vida e tá tudo bem. O mundo é grande demais para eu acreditar que preciso só de você. Ou do seu café. De morno na vida, eu preciso só da minha caneca.

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