Prepare-se para o impacto. Foi a única coisa que veio na minha cabeça depois que você disse que não queria mais. Fiquei estático, não consegui pegar nada que pudesse colocar na minha frente e amenizar a queda brusca no chão, evitar despedaçar tudo. Não tinha nada, não tinha você, não tinha nós. Foi uma queda livre sem escalas.

Acreditava sempre que amor de verdade não acabava, eu embarquei nessa jornada sem nenhuma proteção, fui eu mesmo, fui de peito aberto, cicatrizes de amores e desamores expostas. Ninguém entra em um relacionamento imaginando como será o fim, não existe isso de precaver, de ver se vai valer a pena voar sem o paraquedas de stand by. Essa nossa mania de acreditar que o amor nunca vai nos machucar é ingênua demais, ele às vezes só vem para machucar, ensinar uma lição, servir de reflexão para onde você está direcionando sua vida. Fico mensurando o que estou vivendo agora com o que vivi antes, não é uma comparação, é que todo mundo se baseia em algo, gosto de evitar a mesmice dos erros cometidos. Seguimos em frente, nada podia nos parar, lembro-me como se fosse hoje, eu colocava tudo que podia em duas malas e arriscava a vida fora da minha cidade natal. Isso já vinha sendo planejado com um bom tempo de antecedência. A mudança era algo que nós buscávamos tanto, uma independência, um mundo inteiro para nós dois, e o que foi que aconteceu nesse meio tempo entre o meu check-in e o check-out?

A tripulação avisava que máscaras de ar iriam cair sobre nossas cabeças e que devíamos colocar o mais rápido possível, estava perdendo os sentidos rapidamente e não tinha muito o que se fazer, apenas esperar pelo impacto e torcer para que nada saia do lugar, mas é inevitável. Esperar que caía tudo no seu lugar sem bagunçar nada, depois de uma queda em alta velocidade que se choca com o solo, seco e quente. Tudo despedaça. O coração, a autoconfiança, os sentidos, a vontade de se relacionar de novo, tudo.

Depois da ruptura, os cacos não se juntam logo de cara, eles seguem caminhos diferentes, fazem você seguir para algo novo, fazem você voltar para algo mal resolvido que precisa de uma finalização. Você vai se reconstruindo aos poucos antes de todos os pedaços se juntarem e te reerguerem novamente. Isso demanda um tempo, você não está pronto, vai ficar um dia. Mas não agora. Cada partícula que se quebrou vai fortalecer sua raiz em outro lugar, vai criar uma casca protetora, porque outros impactos virão. Mas você já não vai ser iniciante, piloto de primeira viagem.

O tempo passou, você ficou uma pessoa fechada, não aceita visitas e muito menos deseja sair do mundo particular que criou, até hoje você sente as dores do acidente, não foi o acidente da carne, foi o interior, foi onde demora para cicatrizar, a ferida fica aberta e por fora ninguém consegue ver. Quem sente tudo isso é você. Um dia ela fecha, a cicatriz vai clarear, e você vai se ver embarcando novamente em uma nova viagem, mais experiente, mais sensato. Talvez você comece em uma tirolesa, uma cama elástica, algo que você possa sentir seguro e ter o controle da situação para perder o medo do trauma. Vai se sentir orgulhoso de ter sobrevivido aquela viagem tão desesperada que foi de Goiânia pra cá. Pega esse passaporte e mude o destino. Queda livre sem paraquedas, nunca mais.

 

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