Uma garrafa de vinho barato no meio de uma noite azulada. Bebi duas taças de você naquela madrugada. Os rótulos foram tirados e a gente só tentava decifrar o gosto doce que a outra tinha. Sempre gostei de te acariciar no escuro. Só assim eu podia sentir cada parte do teu corpo residir em mim e mesmo assim me perder no caminho de casa. A fogueira de chamas alaranjadas, se apagou com um sopro leve, o vento que cantarolava em meio às montanhas cessou e o que restou foi apenas um escuro breve.

Meio sem direção correta, teus dedos começaram a desenhar círculos em meu ombro enquanto as minhas pernas faziam um laço e te traziam mais pra perto. Tirei suas roupas e pude sentir cada flor daquele campo se embebedar do teu perfume. Um cheiro adocicado de uva verde, um gosto bom de liberdade. Consigo sentir a saudade crua daquele momento. Você nua, o som do vento, ritmando aquela cena digna de película. Eu poderia eternizar aquela nossa transa. Descrever em seiscentas folhas brancas cada tipo de arrepio que meu corpo sentia ao ser tocado por você.

Florescer. Ainda tenho aqueles cobertores que serviram de colchão, ainda lembro do pouco espaço que abrigou tanta paixão. Lembro da tua voz sussurrada em meio aquela madrugada onde tudo o que eu queria era me embebedar de você. Horas depois escutei alguns sons. Uma gota de orvalho. Duas. Elas pingavam sobre a barraca e deslizavam rapidamente naquele ângulo de quarenta e cinco graus formados erroneamente na noite passada. Nós nunca fomos tão boas em montar acampamentos quanto somos em desmontá-los.

Lá fora a vida já acontecia. A luz do dia entrava naquele tecido fino que revestia nosso lar temporário. Já se passava das seis da manhã. Levantei meu tronco num movimento rápido e pude sentir todas as árvores ao redor fazerem o mesmo. Se sacudiam e deixavam pelo chão as suas folhas envelhecidas que já não serviam mais para morar em certas raízes.

Te observei dormindo por alguns minutos. Um sono leve, sereno. E quando fui me levantar, senti tua mão enroscar meu punho e você me pediu pra ficar. Aconchegou sua cabeça mais próximo de mim e ali ficou. Adormeceu novamente. Paralisei, fiquei, sorri. Apoiei o peso de todo o meu corpo sob meu cotovelo. Organizei todos os teus fios de cabelo, um a um, até que você acordou e um riso doce tomou conta daquele lugar. Você sempre me conheceu muito bem. Naquele momento acabou me ganhando um pouco mais. Coisa fácil de acontecer. Desde que acordei, aquela já era a terceira vez que eu me apaixonava por você.

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