Minha aquarela

Escute enquanto lê: Aquarela – Vinicius de Moraes e Tom Jobim

Quando eu era pequena, eu achava as coisas simples demais. Elas eram… Tudo o que eu precisava para criar o meu mundo perfeito era de umas folhas de papel, tinta, lápis de cor e aquele estojinho lindo de canetinhas que tinha ganhado de natal.

Me lembro de acordar com o dia nublado lá fora e me sentir triste – sempre gostei mais de dias vibrantes. Então eu desenhava um sol, bem amarelo, bem quentinho, e colava na minha cabeceira. Pronto, meu dia estava ensolarado. Me lembro de rezar a noite e, nos meus poucos anos de idade, tudo o que eu tinha pra pedir pra Deus além da saúde dos meus pais era que minha casa virasse um palácio igual ao da Cinderela. E era só acordar que a obra ia sendo feita… Cinco, seis, sete traços… Um pouco de tinta, e glitter, e fitas, e cola… Foi tão fácil fazer um castelo.

Às vezes as coisas saiam fora do esperado. Com descuido, a folha branca era logo atingida por um pinguinho de tinta azul. Mas quem disse que não poderia haver uma reviravolta? Mais uns riscos e tinha linda gaivota voando naquele céu.

E era assim que eu me sentia, tão pequena, com um mundo de papel nas minhas mãos: voando. Para o sentido que quisesse… Uma reta para o norte, outra para o sul, fazendo curvas, viajando para onde quisesse… Paris, Havaí, Londres, Roma, Pequim, Estados Unidos, Istambul, a lua… É, eu poderia ir parar na lua num barco a vela, se quisesse. Ou num avião… Eu nunca tinha visto um avião de perto, mas sempre que eles passavam pelas nuvens que decoravam meu quintal, eu conseguia me imaginar num daqueles. E o meu avião podia ser como eu quisesse… Talvez rosa grená, como meu lápis de cor preferido. Eu viajaria nele, viajaria o mundo todo, veria as luzes das cidades piscando embaixo de mim e, quando eu quisesse, eu poderia pousar.

Sem saber, entretanto, que eu tinha o mundo nas minhas mãos, eu queria tanto crescer! Queria embarcar num navio de partida como o Titanic, e viver aquele grande amor… Queria poder beber aquelas bebidas coloridas com os meus muitos amigos, como eu via meus pais fazendo… E queria crescer para poder, de fato, viajar pelas “Américas”, como eu ouvia os adultos dizendo, embora eu não fizesse nem ideia do que seria aquilo. Queria crescer e descobrir se o mundo era mesmo redondo como aquele que eu desenhava com o compasso. E se ele tivesse outra forma e ninguém soubesse? E se fosse eu quem descobriria que a terra tinha o formato de um coração?

E depois de um dia todo de brincadeiras, de pinturas e invenções, eu me lembro de encostar no muro o quintal e olhar a rua. Ver as pessoas passando, ver como levavam suas vidas, se eram bonitas, se eram felizes, se elas tinham sonhos como eu e quais pareciam ser eles. Eu via as pessoas passando e escolhia aquela que eu achava que seria um dia.

Às vezes eu penso se alguma criança me observa quando eu passo na rua e pensa “um dia eu vou ser assim”… Mesmo que eu não acredite ser nada que alguém possa querer ser… Ainda me sinto tão pequena, tão incapaz. Como se nunca tivesse crescido, até porque não me lembro de um dia em que o Futuro tenha chegado e batido na minha porta. Ele simplesmente entrou sem pedir licença, sem tempo e sem piedade e mudou toda a minha vida… Tudo o que eu sei sobre o Futuro, que agora é meu presente, é que às vezes ele me convida para um pôr-do-sol, para uma viagem de ônibus, para uma mesa de bar – convites para rir ou chorar daquilo que eu me tornei.

Confesso, ainda, que continuo olhando por cima do muro e tentando achar alguém que eu queira ser. Às vezes, procuro alguém que me diga que é possível ser quem eu quero ser. Não importa o quanto eu cresça, não importa o quanto eu tenha vivido, eu ainda tenho comigo dezenas de blocos de papel que me permitem criar um mundo e sonhar com um futuro. Apenas sonhar, porque, eu sei, não me cabe saber o que virá. Eu sigo, como todas as outras pessoas, numa passarela infinita como os traços dos meus desenhos, que eu sinceramente não sei onde vai dar, mas que eu sinto muita alegria em seguir… E traço por traço, caminho por caminho, sonho por sonho, eu construo uma grande aquarela que conte a minha história. Uma aquarela cheia de cores e brilhos e recortes e colagens e rasgos e detalhes que, eu sei, não se descolorirá, desde que minhas cores alcancem as folhas de papel de outras pessoas.

Sei que, para viver a vida dos meus sonhos, eu só preciso de criatividade para inventá-la. Todos temos uma folha de papel, por mais simples e sem graça que ela pareça. Resta-nos saber o que fazer com ela… Como quando éramos pequenos e, numa folha de papel, criávamos nossos mundos particulares. Era só sonhar, imaginar, querer… e fazer.

Quando eu era pequena, eu achava as coisas simples demais. Eu ainda acho.

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