Prazer, meu nome é pânico

PÂNICO. Quando você ouve ou lê essa palavra o que te vem a mente de forma imediata? Até pouquíssimo tempo atrás, a primeira imagem que vinha na minha era aquela máscara branca com expressão assustada, sabe? Sim, a máscara clássica de “Todo mundo em pânico” -filme que por curiosidade eu nunca assisti.

Mãos suando. Medo da própria sombra. Falta de ar. Insegurança extrema. Desespero. Sensação de impotência. Pensamentos excessivos. Imaginação mais fértil que nunca. Unhas ruídas até sangrar. Sensação de desmaio. Perna bamba. Não conseguir realizar coisas muito comuns que antes fazia com facilidade. Essa é a nova imagem que tenho do pânico, prazer. De repente aquela máscara emblemática passou a ser a coisa mais fofa da vida diante desse misto louco de sentimentos incontroláveis que me invadiram.

Poucas vezes eu tinha vivido situações que me deixaram totalmente fora de mim. Tirando a minha aerofobia que embora sempre tenha sido o meu pior pesadelo, eu conseguia amenizar com dramim, rivotril e muita maracujina toda santa vez que precisava voar. Então de alguma forma, eu ainda tinha um pseudo controle da situação.

Eu que sempre tive medo de decolar, de repente me vi não conseguindo simplesmente andar de ônibus mais. Sim, algo natural no meu cotidiano, diria até que automático. Por não dirigir, vou de ônibus para todo lado desde que me entendo por gente. Então passei por um assalto. Dois. Três. Mais um. Mais uma tentativa. Outra. Facão de açougue no pescoço. Vai um celular. Outro. Paga os dois. Tira RG novo. Rotina.

Pegar um ônibus e chegar ao meu destino sã e salva, passou a configurar meu conceito de milagre. Dificilmente conseguia completar o trajeto sem descer em pontos no meio do nada porque alguém que eu vi parecia suspeito. Julgar pela aparência? Sempre fui contra. Me peguei fazendo isso e tantas outras coisas sem nem notar. Já ouviu aquela expressão “tremer até a base”? Então, é assim que eu ficava. Tremia tanto, mas taaanto que mesmo eu super mega chorona, não conseguia sequer derrubar uma lágrima.  Elas ficavam ali congeladas em meus olhos arregalados.

Mas, ok. Síndrome do pânico não é, digamos assim, uma novidade, né? Já conheci tantas pessoas que tem, é bem provável que você conheça também. Tem meu pai que não anda de metrô nem a pau. Amigos que já tiveram crises e mais crises de diversas naturezas. Mas ainda assim, com experiências tão próximas a mim eu não conhecia o pânico. Ele se apresentou pra mim da pior forma. Veio sem máscaras, como realmente é. E me assustou. E me privou de tantas coisas. E me desafiou. E riu, riu na minha cara. Riu e me fez chorar sozinha depois que o choque passou.

Então se você puder absorver só uma coisinha desse texto todo, eu queria muito que fosse o seguinte: não espere acontecer com você para ter empatia com o problema do outro. Mas eu digo empatia de verdade, sabe? Não é só dizer que entende, mas procurar entender realmente. É fazer o esforço de não julgar. Não tentar diminuir o que o outro sente, por mais que pareça a maior tempestade em copinho de café. Quando você não fizer ideia de como ajudar, acredite: a melhor forma de estender a mão é ter empatia. Isso ajuda muito mais do que: “Controla isso em você”, “Tem que enfrentar esse medo logo senão vai piorar” etc.

Peço desculpas a todos pelas vez que eu disse “eu imagino sua dor”, sem conseguir imaginar de fato. Porque na verdade, as dores são intransferíveis. Não precisamos sentir o que o outro sente de forma literal, mas apenas tentar compreender que cada um sente à sua maneira.  Não é nada fácil, mas acredite, tem sido cada vez mais necessário saber lidar com essas dores que apesar de não palpáveis, são muito reais.

Peço desculpas também porque esse texto não tem um final feliz. Sabe o motivo? Porque o pânico é real. E na realidade, nem sempre, os finais felizes existem. Não é um filme estilo besteirol americano que o pânico não passa de um personagem. Quem dera se fosse! Quem dera se a gente tivesse o controle na mão como quando seguramos um controle remoto de tevê. Não é assim e a gente nunca sabe como vai ser o dia seguinte, o próximo ônibus, metrô, elevador. É como esse texto: não tem desfecho.

 

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