Reaprendendo a transbordar

Era uma noite de inverno quando você chegou. Daquele jeito como quem não queria nada, mas acabou sendo tudo pra mim. Não sei se essa foi sua intenção, mas me adaptei ao seu jeito. Você veio e trouxe contigo seu cheiro, seu sorriso, seu abraço e o meu conforto. Te sentir me fazia acreditar que tudo ficaria bem, principalmente entre nós.

Ouvia sua respiração desajeitada e sua inquietude silenciosa e com isso eu tentava entender seu jeito plural de ser. Sua voz me dizia que queria ficar, mas seu coração pulsava em dizer o contrário. E mais uma vez você se deixou levar pela dúvida do “vou ou fico”.

Te vejo se afastando aos poucos. As conversas já não duravam mais e nem tinham a mesma intensidade de antes. Seu sorriso largo começa a ficar reprimido e suas mãos acabam deslizando por total das minhas. Com o tempo o contato visual já nem existe mais. Seus amigos vivem me fazendo lembrar de você. Talvez nem seja por maldade, mas eles comentam que você está feliz e que mudou suas escolhas. Sua cor favorita não é mais a preta, seu filme preferido não é mais aquele de ação, trocou o café pelo vinho, a camiseta pela camisa, o corte de cabelo e agora está frequentando restaurante japonês, e olha que você odiava quando eu tentava te ensinar a manusear o hashi.

Então, talvez, você tenha decidido seguir sua vida e deixar nós no passado. Sua foto, seu status e seu “online” não aparecem mais para mim. Me lembro que era uma noite de primavera quando você me deixou e eu não consegui aproveitar a estação das flores. Vi uma foto sua e não pude deixar de observar suas mãos. O som do carro ainda toca “Quando fui chuva” e me lembro das vezes em que você dizia que não sabia me decifrar. Porque haviam instantes em que eu era chuvisco, outros garoa, mas nunca deixava de ser tempestade. E quando olho pela janela de casa me recordo das inúmeras vezes em que fizemos esse céu de cinema. Você me ensinou a admirar a lua e a dar nomes as estrelas e eu olhava para seu rosto e via o quanto seu sorriso brilhava.

Mas o tempo passou, tudo foi se modificando. Hoje guardo meus sentimentos, tranco a porta e deixo de fora só o que sobrou de ruim desse amor. E só para garantir que aqui você não habitará mais, dou outra volta na chave que fecha meu coração. E então, deixo esse sentimento, que tento camuflar, se remoer dentro de mim.

Seguir em frente é uma meta cotidiana e árdua. Mas outro dia chegará e outro alguém ocupará seu espaço.

E depois de tudo, é inevitável não te agradecer pela parte da minha vida em que você se manteve presente, mas eu só te peço que não reapareça de novo com novas promessas, novas histórias e com o sorriso torto de sempre, aquele que me faz esquecer os motivos que me fizeram decidir tentar me manter fora do seu domínio. Eu não estou preparada para sentir, novamente, a sua indecisão.

E então, agora, te solto de mim e me permito reaprender a transbordar em novos sorrisos. Me afogar em novas intensidades. Eu e meu eu, daqui pra frente.

Texto da leitora amanda gondim. Quer enviar o seu também? Clique aqui.

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