São tempos difíceis para os escritores

São tempos difíceis para os escritores. Sim, esse título é uma paráfrase da famosa fala “São tempos difíceis para os sonhadores” do filme francês O fabuloso destino de Amélie Poulain. Provavelmente você já o assistiu, se ainda não, corre! (Tem na Netflix). Mas nesse texto quero fazer referência a um outro filme. Se chama Heidi e é uma releitura do clássico filmado em 1937. Apenas um dos filmes mais fofos que já vi na vida, sério. Calma, se você ainda não assistiu pode continuar a leitura mesmo assim. Esse texto não contém spoilers. 
Com a simplicidade desse longa aprendi muitas lições, mas uma cena especifica me trouxe muitas lembranças. A pequena e cativante protagonista está na escola com seus amiguinhos do vilarejo e surge a pergunta recorde feita às crianças: o que você quer ser quando crescer? 
Ela responde em prontidão: -escritora!
Todos os coleguinhas caem na risada. 
Quando eu era criança essa também sempre foi minha primeira resposta. E eu dizia com a mesma empolgação e imediatismo de Heidi. Riram de mim muitas vezes, e lembro até de algumas ‘tias’ da época da escola dizendo que eu nem podia considerar uma profissão. “Essa não vale, escolhe outra”, “Humm… Legal, mas com o que você vai trabalhar? Acho que não entendeu a pergunta”. 
Hoje eu dou razão a todos que riram de mim, de Heidi e das outras crianças que também tinham o mesmo sonho. Sim, eles estavam certos. Afinal, para ser escritor não é necessário frequentar uma faculdade, ter um diploma e outras mil especializações. Não é mesmo como ser médico, advogado, dentista ou qualquer outra profissão. 
Ser escritor é um dom. Não é juntar algumas palavras aleatórias e fazer um texto meia boca. Escrever é desenhar com as palavras, transbordar no papel, costurar histórias, criar universos e brincar com o infinito. Escrever é estabelecer conexões entre pessoas aparentemente​ opostas, propor novas perspectivas, causar indagações e reflexões. Escrever é ter o mundo ao alcance do seu próprio punho. É ter no papel (ou numa lauda de Word) um amigo confidente. O escritor é, antes de tudo, um observador. Ele está sempre sensível ao mundo que o rodeia, as cores, sensações, sabores, amores e desamores. 
Em um mundo tão estilo fast-food, em que as pessoas não se interessam por histórias que fogem de sua bolha cor-de-rosa, é difícil ser escritor. Aliás não sei se concordo que ” São tempos difíceis para os escritores”. Na verdade, acredito que nunca foi fácil, nem agora, nem em 1937 quando Heidi era menina. Nunca foi fácil ser escritor porque as pessoas tendem sempre a querer falar, e tem dificuldade de ouvir o outro. Mas qual escritor que se presa não gosta de um desafio? Talvez seja esse o principal ingrediente para uma boa história. 
Escrever​ é ir na contramão do mundo, daí acontece de bater de frente com os valores que andam invertidos, né? Feliz dia do escritor pra todos aqueles que também se arriscam nessa aventura das palavras nem sempre ditas. Afinal, como bem disse José Saramago: “Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”.

Comentários no Facebook