Saudades amanhecidas e um café amargo

Você pode ler esse texto ouvindo “Mais uma vez – Legião Urbana
Hoje o sol acordou um tanto teimoso. Desafiou a fresta que minha persiana deixou escancarar por descuido. Ele veio me invadir logo cedo, assim mesmo sem pedir licença, sabe? Forçou minhas pálpebras a cederem e minhas pupilas a olharem o dia. Tudo isso mesmo depois de uma longa madrugada insone. Acho que era um jeitinho dele dizer que a vida continua. Que mesmo sem você, tudo iria seguir o ciclo normal: amanhecer, entardecer, anoitecer… Por mais que dentro de mim estivesse tudo meio cinza, o dia lá fora radiava luz e a brisa leve fazia carinho nos meus cabelos. Não chegava nem perto do cafuné que você me fazia com as pontas dos dedos, mas era um afago no meu coração apertadinho. 
Acordei a contragosto, não vou negar. Por mais ingrata e principalmente egoísta que pareça, só um questionamento persistia em minha mente: “Será que eu ainda ocupo um lugarzinho na sua saudade?”. Nem preciso de um quarto muito espaçoso, sabe? Queria saber se ainda rolava um puxadinho na sua lembrança. Queria saber se ainda sou uma lembrança doce igual aquela paleta mexicana que você comprava pra me fazer uma surpresa no final do expediente. Ainda lembra o meu sabor preferido? Talvez não. 
Já me disseram pra eu não me conformar com tão pouco. Já li um monte de textos de autoajuda que falam sobre amor próprio. Textos lindos que eu até concordo, inclusive. Mas só na teoria. Na prática, quando a noite cai, quando eu já zerei várias maratonas de seriados leves na Netflix, quando já raspei todo o pote de Nutella, a sua lembrança vem com força e me invade. No fundo, bem no fundo mesmo, eu sei que mereço mais do que aquelas tardes ensolaradas no parque do outro lado da cidade que você me levava. Mereço mais que deitar naquela toalha xadrez, tirar da cesta o sanduíche de frango que você fazia e comer enquanto ouvia suas promessas pro nosso futuro – que parecia tão perfeito. Tudo isso olhando pro mesmo céu que me acordou hoje, e que realmente está tão lindo, que você com certeza iria tirar uma foto, fazer um verso pra ele e postar no seu Instagram. Eu seria a primeira a curtir. Adorava as suas poesias, sua forma bonita de ver o mundo, menino. 
É, talvez eu mereça mais que o capuccino que você me preparava nas manhãs frias. O seu era o único que eu tomava, porque você sabia fazer do jeitinho que eu amo: cremoso, mas sem canela. Eu amava tanto esse seu cuidado ímpar! Ah, mas tenho que me convencer que eu mereço mais que isso e vestir a armadura que guardei no armário – do lado daquele vestido floral que você me deu no último aniversário. Tenho que ser forte, não é mesmo? Tenho que lembrar de todos esses detalhes e não sentir dor. Afinal, tem aquela frase que diz: “Ninguém é insubstituível”. Não lembro agora quem escreveu, mas preciso discordar humildemente, caro (clique duas vezes para inserir o nome do autor desconhecido aqui). Eu acredito justamente no oposto: ninguém é substituível. E são justamente os nossos detalhes, nossas peculiaridades, nossas bizarrices, que nos fazem únicos. Simples assim – ou nem tanto. 
Se ninguém é insubstituível pra mim, como você seria? Logo você! Logo você com esse sorriso enorme, com seu alto astral que contagiava até o motorista do ônibus, com essa sua mania de falar gesticulando e me fazer rir. Logo você com esse seu beijo de primavera, com esses olhos amendoados de outono, com esses cabelos cor de sol no verão, e com esse coração meio inverno de metrópole. Um coração que eu achei que me esquentava o suficiente, mas aí veio esse enorme arranha céu e cobriu o nosso sol mais que aquelas nuvens gordinhas – que sempre víamos em formato de bichinhos. 
Agora, esse mesmo sol, está aqui na minha janela. E ele me obriga a continuar, me mostra que é possível renascer como ele. Então vou me levantar e preparar meu café o mais forte que der, pra ver se eu não lembro ainda mais do seu cappuccino e das nossas manhãs juntos. Eu jurei que era pra sempre, sabe? Eu queria ao menos escrever um final feliz para essas linhas, mas nem tudo é tão açucarado como nos filmes de comédia romântica que você adorava (sim, já pode admitir isso, durão!). Nem tudo, inclusive o meu café amargo. As coisas sem açúcar também podem ser gostosas, ou pelo menos é nisso que quero acreditar. As minhas taxas de glicose agradecem. 
PS: Sua xícara continua guardada aqui pra caso você queira aparecer e me acompanhar no café da manhã. Vou adorar saber como tá a sua tia avó e seu cachorro. E de quebra, como quem não quer nada, vou dizer que ainda te amo. 
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